Dia 14 de Chess

O retorno à superfície ainda era um pensamento distante quando o grupo foi conduzido por uma escolta sinistra até Azrok e sua esposa. O salão onde os Duergar reinavam era úmido e pesado, mas a figura que mais chamava atenção não era o senhor da guerra anão-cinzento. Ao seu lado, um sacerdote vestia uma túnica que parecia mais uma armadura de guerra, cravejada de tachas e manchas escuras. Em seu peito, o símbolo de seu deus piscava sob a luz de tochas fumegantes: um Machado Ensanguentado do Carrasco.
Sem cerimônias, o sacerdote nos lançou uma maldição. As palavras ecoaram em uma língua antiga e dolorosa, e Thia sentiu o arrepio da magia hostil envolvendo a todos. A condição era clara: quando encontrassem a adaga roubada de Azrok, seriam obrigados a trazê-la de volta. Thia nos alertou, com a voz pesarosa, que seríamos consumidos pela dor e pela fraqueza se falhássemos. Agora carregamos o peso dessa promessa amaldiçoada — e sabemos que, ao tocar na adaga, a obrigação selará nosso destino até devolvê-la.
Sobre Kressando Rosznar, ainda estavam abalados pela verdade que veio à tona no dia anterior: ele foi morto por Azrok, assim a principio não sabiam como completar a missão. Mas ainda assim conseguimos uma pista. Antes de seu fim, Kressando era escoltado por mercenários a serviço de Xanathar. Queríamos encontrá-los para saber, afinal, o paradeiro das crianças desaparecidas. O caminho nos guiou até Skullport.
Skullport é um lugar que fede a desespero. O teto baixo e irregular parece querer esmagar quem ali entra, e a penumbra é quebrada apenas por fogueiras errantes e pelos olhos brilhantes de bandidos que observam cada passo. Canais de água escura cortam as ruas de terra batida, e o som de grilhões, negociações sussurradas e facas sendo amoladas nunca cessa. Foi nesse antro que, após negociações tensas e contatos relutantes, encontramos os mercenários que procuravam.
Eles não gostaram da nossa visita. Em vez de palavras, nos desafiaram para um combate mano a mano em troca da informação. Orin, em um momento de confiança exacerbada, aceitou sem saber as regras. E perdeu. Foi destroçado em uma arena improvisada onde os bandidos lutavam apenas com os punhos. Sangrando e humilhado, conseguimos, por um triunfo da lábia, convencê-los a conversar. Foi assim que descobrimos sobre uma fazenda abandonada nos arredores de Waterdeep — possivelmente o local onde as crianças foram deixadas.
Com essa informação em mente, voltamos nossos esforços para a adaga de Azrok. Investigamos cada corredor, cada recanto esquecido, até descobrirmos a verdade: os Duergar rebeldes que a roubaram desceram para o sexto nível. Levaram a adaga consigo, e nos resta agora descer ainda mais fundo.
Retornamos a Azrok para informá-lo. Confirmamos que cumpriríamos o acordo e buscaríamos a adaga. O Senhor da Guerra Hobgoblin assentiu, e por um momento, a trégua pareceu sólida.
O caminho de volta pelo labirinto se mostrou mais fácil do que o esperado depois desses dias que passamos em Undermountain. Os corredores que antes pareciam um emaranhado mortal agora revelavam padrões familiares, e as armadilhas que temíamos pareciam adormecidas — ou talvez fosse apenas a experiência adquirida a cada esquina. Cruzamos câmaras outrora perigosas com passos mais leves, e o grupo, embora cansado, sentiu um sopro de alívio ao ver os ecos da subida. Assim que rompemos a última escadaria e sentimos o ar fresco da superfície, seguimos direto ao Portal Bocejante para nos reabastecer — mas ao chegar à taverna, uma notícia nos aguardava.
Vasher, que há dias desaparecera na masmorra, havia retornado à superfície antes de nós. Procuramos por Obaya Uday, que nos contou, com sua voz calma e negociadora, que Vasher vendera alguns itens para ela. Nada mais. Obaya, porém, reabasteceu o poder que havia nos itens mágicos por mais uma semana. E assim, exaustos, com a mente girando entre maldições, adagas roubadas, crianças desaparecidas e o fantasma de Kressando já morto, acabamos descansando sobre o teto da taverna do Portal Bocejante.
A lua sobre Waterdeep parecia indiferente aos nossos pesos. Mas amanhã, desceremos novamente.

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