Uma Descida à Masmorra do Mago Louco e Introdução & Apresentação dos Personagens
Introdução (Prólogo)
Thia Galanodel
A sala de reuniões do Templo do Panteão de Seldarine era um refúgio de silêncio e memória. Ali, a espiritualidade élfica parecia se manifestar não apenas em preces, mas nas próprias paredes. Tapeçarias tecidas com fios dourados narravam batalhas divinas e feitos de heróis esquecidos, enquanto estátuas de mármore branco — deuses antigos, imortais em pedra — observavam tudo com olhos eternamente atentos.
A luz atravessava os vitrais coloridos em feixes fragmentados, projetando padrões vivos sobre o piso de mármore polido. O aroma suave do incenso de sândalo pairava no ar, envolvendo Thia Galanodel numa sensação de reverência e calma que contrastava com o peso do momento.
Sentada à mesa de carvalho maciço, Thia mantinha a postura ereta diante de Biafyndar Loceath. Os olhos azuis do sacerdote carregavam determinação — e preocupação. Sua voz era controlada, mas firme, à medida que revelava os acontecimentos que haviam levado àquela reunião.
Crianças haviam desaparecido. Os mais jovens. Os mais indefesos. Arrancados da comunidade por mãos invisíveis, deixando apenas o rastro do medo. Entre os nomes sussurrados surgia um desconhecido: Kressando Rosznar. Quem era aquele homem? E por que, após os desaparecimentos, fugira para as masmorras sob a cidade?
A proposta era clara e pesada como aço: investigar a ligação de Kressando com os raptores e, se possível, deter um traficante que ameaçava não apenas vidas inocentes, mas o equilíbrio da própria cidade. Thia sentiu o peso da responsabilidade pousar sobre seus ombros — mas também reconheceu ali uma oportunidade rara de fazer a diferença.
Enquanto escutava, sua mente avaliava mais do que a missão. Havia algo além. A chance de acesso às criptas sob o templo, onde talvez repousassem fragmentos de verdade sobre Illefarn — respostas que ela buscava há muito tempo.
Foi então que Biafyndar revelou o último obstáculo. Kressando mantinha negócios com criminosos poderosos. Se alguém do templo descesse diretamente, levantaria suspeitas perigosas. A solução exigia sutileza.
Havia uma missão já marcada. Um sacerdote de Waukeen, Obaya Uday, organizava uma expedição para aquela mesma noite. Suprimentos, apoio… e até um item mágico para auxiliá-la. Thia deveria encontrá-la no Yawning Portal, conhecer seus futuros companheiros e descer sob o disfarce certo.
A fé seria sua lâmina. A discrição, sua armadura.
Orin
Os corredores da mansão se estendiam como veias douradas de riqueza e poder. Orin seguia Randal em silêncio, atento aos detalhes: tapeçarias finamente tecidas, candelabros dourados refletindo luz quente nas paredes, empregados que se moviam com precisão ensaiada. Cada passo era abafado pelos tapetes espessos que falavam de fortuna antiga.
Ao chegarem ao escritório, Orin percebeu de imediato a tensão no rosto do comerciante. Antes de qualquer palavra, Randal lançou olhares cautelosos ao redor, certificando-se de que estavam sós.
Então, sem aviso, uma parede se abriu.
Dela surgiu uma mulher de presença marcante. Pele negra como ônix polido, olhos castanhos atentos, vestes nobres que denunciavam status e influência. Esvele Rosznar apresentou-se com a naturalidade de quem está acostumada a segredos — e a carregá-los sozinha.
Sua voz era um sussurro urgente. Falava de intrigas familiares, de um nome que carregava peso e vergonha. O pedido não era simples: deter as ações de sua própria família, resgatar — ou sequestrar, se fosse necessário — o irmão desaparecido. Kressando Rosznar estava envolvido com a Guilda Xanathar, mergulhado em tráfico de escravos e crimes que ameaçavam arrastar o nome Rosznar para o abismo.
Havia urgência em suas palavras, como se cada frase tivesse sido acrescentada no último instante possível. Orin compreendeu a gravidade da situação sem precisar de mais explicações.
Randal, então, acrescentou a peça final ao tabuleiro. Um sacerdote chultano, Obaya Uday, estava organizando uma expedição em nome do mago Wakanga O’tamu. A missão já era conhecida, ventilada há tempos — uma cortina de fumaça perfeita. Desceriam sem levantar suspeitas, sem atrair a atenção dos aliados de Kressando.
Antes de partir, Esvele pousou a mão sobre o ombro de Orin. O gesto era leve, mas o recado pesado: discrição não era apenas recomendável. Era vital. O fracasso custaria mais do que vidas — custaria um nome inteiro.
Gunnar Stonehead
O Yawning Portal fervilhava como sempre. O cheiro adocicado do zzar se misturava ao burburinho das conversas, ao ranger da madeira antiga e ao eco distante do poço que dominava o centro da taverna.
Gunnar Stonehead — conhecido por alguns como Rudolf — entrou com passos firmes. Anão de constituição sólida, olhos atentos e expressão moldada por anos de submundo e sobrevivência. Dirigiu-se diretamente a Durnan, cuja presença dominava o balcão tanto quanto o próprio poço dominava o salão.
Entre palavras ditas acima do ruído da taverna, Durnan ordenou que chamassem Gunnar para uma conversa privada. O anão não se surpreendeu. Quando Durnan chamava, era porque algo grande estava em jogo.
Antes de se afastarem, Gunnar notou um papel deixado sobre o balcão. Pegou-o sem comentário.
Sentados numa mesa discreta, Durnan foi direto ao ponto. Cinco mil dragões de ouro. O preço por uma tarefa delicada: capturar Kressando Rosznar antes que alcançasse Skullport e se integrasse à Guilda Xanathar. O jovem nobre já havia descido algumas horas antes. O tempo corria contra eles.
Gunnar estranhou o conteúdo do papel — falava sobre ajudar uma igreja a recuperar itens mágicos em Undermountain — mas guardou a informação para depois.
Durnan, porém, não deixou de alertar: havia agentes de Skullport na taverna. Gente experiente demais para aceitar uma missão improvisada. Por isso, a segunda opção. Um velho conhecido buscava aventureiros para recuperar itens mágicos naquela mesma noite. Estava disposto a ajudar. E a equipar o grupo.
Pietro Stonehead
Pietro escutava o pai com atenção absoluta. Cada detalhe, cada pausa, cada nome. A empolgação crescia — mas não sem cautela. Ele confiava em Gunnar, mas conhecia bem os riscos daquele tipo de trabalho.
Então veio o nome que mudou tudo.
Obaya Uday.
A surpresa foi imediata. Pietro a conhecia. Havia conversado com ela diversas vezes no último mês, sempre no Yawning Portal. Lembrava-se bem de sua postura direta, pragmática, de alguém que não desperdiçava tempo — nem confiança — com aventureiros medíocres.
Algo não se encaixava.
Ele começou a repensar o que sabia sobre ela.
Primeiro: Obaya tinha acesso evidente a grandes somas de dinheiro. Não era por ouro que se arriscaria numa descida como aquela.
Segundo: e se aquelas conversas frequentes nunca tivessem sido casuais? E se, desde o início, ela estivesse avaliando? Medindo sua mente, sua disciplina, sua utilidade?
Talvez aquela missão não tivesse começado naquela noite.
Talvez tivesse começado um mês atrás.
Vasher
Antes que os caminhos deles se cruzassem, Vasher já sentia que estava descendo.
Não lembrava de como chegara a Waterdeep. A cidade simplesmente existia ao seu redor, sólida e ruidosa, enquanto sua própria história permanecia em ruínas. Ruas, vozes, o peso do corpo — tudo estava ali. O passado, não. Havia lacunas grandes demais para serem ignoradas, como páginas arrancadas de um grimório.
Uma única palavra resistia ao esquecimento, repetindo-se em sua mente como um eco persistente:
Halaster.
Vasher não sabia se era um nome, um lugar ou um erro que jamais deveria ter sido pronunciado. Apenas sentia que aquela palavra o puxava para baixo, em direção a algo antigo e faminto.
Segredos o atraíam de forma quase instintiva. Portas fechadas, verdades ocultas, conhecimentos proibidos — especialmente aqueles que tocavam os limites entre vida e morte. A morte, para ele, não era um fim, mas uma fronteira mal compreendida. E fronteiras existem para ser atravessadas.
Foi nos dias confusos após despertar em Waterdeep que ele conheceu Obaya Uday.
O encontro não pareceu casual — embora ele não tivesse memória suficiente para afirmar isso. Obaya surgira como alguém que observava mais do que falava, que fazia perguntas indiretas e oferecia respostas incompletas. Ela não demonstrava curiosidade pela história de Vasher; demonstrava interesse por sua capacidade de continuar vivo.
Ela o testou, não com lâminas ou armadilhas, mas com conversas longas demais, problemas pequenos porém perigosos, escolhas morais colocadas de forma deliberadamente ambígua. Sempre avaliando. Sempre medindo. Como se quisesse saber até onde ele iria… e o que estaria disposto a perder para avançar.
Vasher percebeu isso tarde demais — ou talvez cedo demais para fazer diferença.
Obaya falava da masmorra como quem descreve um mercado: com pragmatismo absoluto. Não havia heroísmo em suas palavras, apenas logística, risco e retorno. Ainda assim, cada menção à Undermountain fazia algo se mover dentro dele, como um órgão esquecido despertando.
Às vezes, ao fechar os olhos, Vasher tinha a estranha certeza de que já havia morrido.
E retornado.
Essa ideia não lhe causava horror. Apenas reforçava sua convicção mais profunda: a revelação final justificava qualquer sacrifício. Ética, conforto, até vidas — tudo podia ser negociável diante da verdade certa. Havia algo errado com ele. Uma aflição, uma maldição ou uma consequência. E ele sentia que a resposta não estava acima da cidade, mas abaixo.
Reunião com Obaya.
No local e hora marcados, eles encontraram Obaya Uday. A sacerdotisa não perdeu tempo com rodeios. Explicou o que desejava: recuperar itens mágicos específicos para um contratante poderoso — e estava disposta a pagar muito bem por isso.
Para o grupo, aquela expedição era mais do que um contrato. Era o disfarce perfeito. Enquanto Kressando Rosznar descia rumo a Skullport para amarrar seu destino à Xanathar Guild e ao comércio de escravos, eles teriam uma razão legítima para seguir o mesmo caminho.
Obaya não veio de mãos vazias. Entregou a Gunnar uma bolsa de carga encantada, capaz de suportar o peso do necessário — e do indesejável. A Pietro, ofereceu um cordão que protegeria sua mente e ocultaria sua presença. Thia recebeu um amuleto capaz de impedir que o pior se consumasse. A Orin, uma luva que lhe concederia força física além do comum. Vasher uma tiara magica que lhe permitiria compreender melhor os desafios. Suprimentos completavam o pacote. Havia, porém, uma condição — seca como o tique-taque de um relógio: os itens funcionariam por apenas uma semana sem a renovação de sua bênção. O tempo não seria apenas um risco. Seria uma regra.
Naquele mesmo dia, tornava-se evidente que muitos olhos os observavam. Alguns curiosos. Outros, perigosamente atentos. Durnan mantinha o salão em equilíbrio precário, como um ponteiro suspenso sobre uma lâmina.
Vasher, Orin, Thia, Gunnar e Pietro ajustaram cintos, conferiram frascos e, em silêncio compartilhado, encararam o contorno negro do poço.
Nesse mesmo dia desceram pelo poço do Yawning Portal rumo a Undermountain. A escuridão os envolveu assim que alcançaram o fundo: uma sala ampla, de chão coberto por areia fina e paredes adornadas por escudos enferrujados e quebradiços. Grafites antigos e mensagens em línguas esquecidas marcavam as pedras, como cicatrizes deixadas por gerações de aventureiros.
Seguindo o único túnel visível, o grupo avançou até um corredor largo, onde relevos demoníacos se erguiam das paredes em recessos profundos. Cada figura parecia observar os viajantes com olhos esculpidos em pedra, e o silêncio era quebrado apenas pelo eco dos passos. Um esqueleto de kenku jazia no chão, o braço estendido em direção ao relevo de um nalfeshnee, como se indicasse um caminho oculto. A atmosfera era pesada, e os pilares que sustentavam o salão pareciam formar uma floresta mineral, um labirinto de sombras e presenças invisíveis.
Explorando mais além, descobriram uma passagem secreta que os levou a uma sala inclinada, tomada por água turva e fétida que escorria lentamente pelo piso. No fundo, uma estátua de sahuagin erguia-se em meio ao líquido, irradiando um brilho roxo inquietante. Seu rosto estava virado para trás, e um braço faltava, como se tivesse sido arrancado em tempos remotos. Ao se aproximarem, foram atacados por um lodo cinzento psíquico, invisível até se mover contra eles.
Após derrotarem a criatura, investigaram a estátua e descobriram que sua cabeça era removível. Dentro dela, encontraram um compartimento carbonizado, com restos de cera derretida — sinais de que, em algum momento, a estátua fora usada como uma lanterna macabra.
Exaustos pela descida e pelo combate, decidiram acampar ali mesmo, na sala inclinada. Montaram suas provisões em um ponto mais seco, mantendo vigília enquanto o brilho roxo da estátua iluminava fracamente o ambiente. O som constante da água escorrendo pelas paredes acompanhava o silêncio do grupo, que repousava sob o peso da primeira noite em Undermountain.
Thia Galanodel
A sala de reuniões do Templo do Panteão de Seldarine era um refúgio de silêncio e memória. Ali, a espiritualidade élfica parecia se manifestar não apenas em preces, mas nas próprias paredes. Tapeçarias tecidas com fios dourados narravam batalhas divinas e feitos de heróis esquecidos, enquanto estátuas de mármore branco — deuses antigos, imortais em pedra — observavam tudo com olhos eternamente atentos.
A luz atravessava os vitrais coloridos em feixes fragmentados, projetando padrões vivos sobre o piso de mármore polido. O aroma suave do incenso de sândalo pairava no ar, envolvendo Thia Galanodel numa sensação de reverência e calma que contrastava com o peso do momento.
Sentada à mesa de carvalho maciço, Thia mantinha a postura ereta diante de Biafyndar Loceath. Os olhos azuis do sacerdote carregavam determinação — e preocupação. Sua voz era controlada, mas firme, à medida que revelava os acontecimentos que haviam levado àquela reunião.
Crianças haviam desaparecido. Os mais jovens. Os mais indefesos. Arrancados da comunidade por mãos invisíveis, deixando apenas o rastro do medo. Entre os nomes sussurrados surgia um desconhecido: Kressando Rosznar. Quem era aquele homem? E por que, após os desaparecimentos, fugira para as masmorras sob a cidade?
A proposta era clara e pesada como aço: investigar a ligação de Kressando com os raptores e, se possível, deter um traficante que ameaçava não apenas vidas inocentes, mas o equilíbrio da própria cidade. Thia sentiu o peso da responsabilidade pousar sobre seus ombros — mas também reconheceu ali uma oportunidade rara de fazer a diferença.
Enquanto escutava, sua mente avaliava mais do que a missão. Havia algo além. A chance de acesso às criptas sob o templo, onde talvez repousassem fragmentos de verdade sobre Illefarn — respostas que ela buscava há muito tempo.
Foi então que Biafyndar revelou o último obstáculo. Kressando mantinha negócios com criminosos poderosos. Se alguém do templo descesse diretamente, levantaria suspeitas perigosas. A solução exigia sutileza.
Havia uma missão já marcada. Um sacerdote de Waukeen, Obaya Uday, organizava uma expedição para aquela mesma noite. Suprimentos, apoio… e até um item mágico para auxiliá-la. Thia deveria encontrá-la no Yawning Portal, conhecer seus futuros companheiros e descer sob o disfarce certo.
A fé seria sua lâmina. A discrição, sua armadura.
Orin
Os corredores da mansão se estendiam como veias douradas de riqueza e poder. Orin seguia Randal em silêncio, atento aos detalhes: tapeçarias finamente tecidas, candelabros dourados refletindo luz quente nas paredes, empregados que se moviam com precisão ensaiada. Cada passo era abafado pelos tapetes espessos que falavam de fortuna antiga.
Ao chegarem ao escritório, Orin percebeu de imediato a tensão no rosto do comerciante. Antes de qualquer palavra, Randal lançou olhares cautelosos ao redor, certificando-se de que estavam sós.
Então, sem aviso, uma parede se abriu.
Dela surgiu uma mulher de presença marcante. Pele negra como ônix polido, olhos castanhos atentos, vestes nobres que denunciavam status e influência. Esvele Rosznar apresentou-se com a naturalidade de quem está acostumada a segredos — e a carregá-los sozinha.
Sua voz era um sussurro urgente. Falava de intrigas familiares, de um nome que carregava peso e vergonha. O pedido não era simples: deter as ações de sua própria família, resgatar — ou sequestrar, se fosse necessário — o irmão desaparecido. Kressando Rosznar estava envolvido com a Guilda Xanathar, mergulhado em tráfico de escravos e crimes que ameaçavam arrastar o nome Rosznar para o abismo.
Havia urgência em suas palavras, como se cada frase tivesse sido acrescentada no último instante possível. Orin compreendeu a gravidade da situação sem precisar de mais explicações.
Randal, então, acrescentou a peça final ao tabuleiro. Um sacerdote chultano, Obaya Uday, estava organizando uma expedição em nome do mago Wakanga O’tamu. A missão já era conhecida, ventilada há tempos — uma cortina de fumaça perfeita. Desceriam sem levantar suspeitas, sem atrair a atenção dos aliados de Kressando.
Antes de partir, Esvele pousou a mão sobre o ombro de Orin. O gesto era leve, mas o recado pesado: discrição não era apenas recomendável. Era vital. O fracasso custaria mais do que vidas — custaria um nome inteiro.
Gunnar Stonehead
O Yawning Portal fervilhava como sempre. O cheiro adocicado do zzar se misturava ao burburinho das conversas, ao ranger da madeira antiga e ao eco distante do poço que dominava o centro da taverna.
Gunnar Stonehead — conhecido por alguns como Rudolf — entrou com passos firmes. Anão de constituição sólida, olhos atentos e expressão moldada por anos de submundo e sobrevivência. Dirigiu-se diretamente a Durnan, cuja presença dominava o balcão tanto quanto o próprio poço dominava o salão.
Entre palavras ditas acima do ruído da taverna, Durnan ordenou que chamassem Gunnar para uma conversa privada. O anão não se surpreendeu. Quando Durnan chamava, era porque algo grande estava em jogo.
Antes de se afastarem, Gunnar notou um papel deixado sobre o balcão. Pegou-o sem comentário.
Sentados numa mesa discreta, Durnan foi direto ao ponto. Cinco mil dragões de ouro. O preço por uma tarefa delicada: capturar Kressando Rosznar antes que alcançasse Skullport e se integrasse à Guilda Xanathar. O jovem nobre já havia descido algumas horas antes. O tempo corria contra eles.
Gunnar estranhou o conteúdo do papel — falava sobre ajudar uma igreja a recuperar itens mágicos em Undermountain — mas guardou a informação para depois.
Durnan, porém, não deixou de alertar: havia agentes de Skullport na taverna. Gente experiente demais para aceitar uma missão improvisada. Por isso, a segunda opção. Um velho conhecido buscava aventureiros para recuperar itens mágicos naquela mesma noite. Estava disposto a ajudar. E a equipar o grupo.
Pietro Stonehead
Pietro escutava o pai com atenção absoluta. Cada detalhe, cada pausa, cada nome. A empolgação crescia — mas não sem cautela. Ele confiava em Gunnar, mas conhecia bem os riscos daquele tipo de trabalho.
Então veio o nome que mudou tudo.
Obaya Uday.
A surpresa foi imediata. Pietro a conhecia. Havia conversado com ela diversas vezes no último mês, sempre no Yawning Portal. Lembrava-se bem de sua postura direta, pragmática, de alguém que não desperdiçava tempo — nem confiança — com aventureiros medíocres.
Algo não se encaixava.
Ele começou a repensar o que sabia sobre ela.
Primeiro: Obaya tinha acesso evidente a grandes somas de dinheiro. Não era por ouro que se arriscaria numa descida como aquela.
Segundo: e se aquelas conversas frequentes nunca tivessem sido casuais? E se, desde o início, ela estivesse avaliando? Medindo sua mente, sua disciplina, sua utilidade?
Talvez aquela missão não tivesse começado naquela noite.
Talvez tivesse começado um mês atrás.
Vasher
Antes que os caminhos deles se cruzassem, Vasher já sentia que estava descendo.
Não lembrava de como chegara a Waterdeep. A cidade simplesmente existia ao seu redor, sólida e ruidosa, enquanto sua própria história permanecia em ruínas. Ruas, vozes, o peso do corpo — tudo estava ali. O passado, não. Havia lacunas grandes demais para serem ignoradas, como páginas arrancadas de um grimório.
Uma única palavra resistia ao esquecimento, repetindo-se em sua mente como um eco persistente:
Halaster.
Vasher não sabia se era um nome, um lugar ou um erro que jamais deveria ter sido pronunciado. Apenas sentia que aquela palavra o puxava para baixo, em direção a algo antigo e faminto.
Segredos o atraíam de forma quase instintiva. Portas fechadas, verdades ocultas, conhecimentos proibidos — especialmente aqueles que tocavam os limites entre vida e morte. A morte, para ele, não era um fim, mas uma fronteira mal compreendida. E fronteiras existem para ser atravessadas.
Foi nos dias confusos após despertar em Waterdeep que ele conheceu Obaya Uday.
O encontro não pareceu casual — embora ele não tivesse memória suficiente para afirmar isso. Obaya surgira como alguém que observava mais do que falava, que fazia perguntas indiretas e oferecia respostas incompletas. Ela não demonstrava curiosidade pela história de Vasher; demonstrava interesse por sua capacidade de continuar vivo.
Ela o testou, não com lâminas ou armadilhas, mas com conversas longas demais, problemas pequenos porém perigosos, escolhas morais colocadas de forma deliberadamente ambígua. Sempre avaliando. Sempre medindo. Como se quisesse saber até onde ele iria… e o que estaria disposto a perder para avançar.
Vasher percebeu isso tarde demais — ou talvez cedo demais para fazer diferença.
Obaya falava da masmorra como quem descreve um mercado: com pragmatismo absoluto. Não havia heroísmo em suas palavras, apenas logística, risco e retorno. Ainda assim, cada menção à Undermountain fazia algo se mover dentro dele, como um órgão esquecido despertando.
Às vezes, ao fechar os olhos, Vasher tinha a estranha certeza de que já havia morrido.
E retornado.
Essa ideia não lhe causava horror. Apenas reforçava sua convicção mais profunda: a revelação final justificava qualquer sacrifício. Ética, conforto, até vidas — tudo podia ser negociável diante da verdade certa. Havia algo errado com ele. Uma aflição, uma maldição ou uma consequência. E ele sentia que a resposta não estava acima da cidade, mas abaixo.
Reunião com Obaya.
No local e hora marcados, eles encontraram Obaya Uday. A sacerdotisa não perdeu tempo com rodeios. Explicou o que desejava: recuperar itens mágicos específicos para um contratante poderoso — e estava disposta a pagar muito bem por isso.
Para o grupo, aquela expedição era mais do que um contrato. Era o disfarce perfeito. Enquanto Kressando Rosznar descia rumo a Skullport para amarrar seu destino à Xanathar Guild e ao comércio de escravos, eles teriam uma razão legítima para seguir o mesmo caminho.
Obaya não veio de mãos vazias. Entregou a Gunnar uma bolsa de carga encantada, capaz de suportar o peso do necessário — e do indesejável. A Pietro, ofereceu um cordão que protegeria sua mente e ocultaria sua presença. Thia recebeu um amuleto capaz de impedir que o pior se consumasse. A Orin, uma luva que lhe concederia força física além do comum. Vasher uma tiara magica que lhe permitiria compreender melhor os desafios. Suprimentos completavam o pacote. Havia, porém, uma condição — seca como o tique-taque de um relógio: os itens funcionariam por apenas uma semana sem a renovação de sua bênção. O tempo não seria apenas um risco. Seria uma regra.
Naquele mesmo dia, tornava-se evidente que muitos olhos os observavam. Alguns curiosos. Outros, perigosamente atentos. Durnan mantinha o salão em equilíbrio precário, como um ponteiro suspenso sobre uma lâmina.
Vasher, Orin, Thia, Gunnar e Pietro ajustaram cintos, conferiram frascos e, em silêncio compartilhado, encararam o contorno negro do poço.
Nesse mesmo dia desceram pelo poço do Yawning Portal rumo a Undermountain. A escuridão os envolveu assim que alcançaram o fundo: uma sala ampla, de chão coberto por areia fina e paredes adornadas por escudos enferrujados e quebradiços. Grafites antigos e mensagens em línguas esquecidas marcavam as pedras, como cicatrizes deixadas por gerações de aventureiros.
Seguindo o único túnel visível, o grupo avançou até um corredor largo, onde relevos demoníacos se erguiam das paredes em recessos profundos. Cada figura parecia observar os viajantes com olhos esculpidos em pedra, e o silêncio era quebrado apenas pelo eco dos passos. Um esqueleto de kenku jazia no chão, o braço estendido em direção ao relevo de um nalfeshnee, como se indicasse um caminho oculto. A atmosfera era pesada, e os pilares que sustentavam o salão pareciam formar uma floresta mineral, um labirinto de sombras e presenças invisíveis.
Explorando mais além, descobriram uma passagem secreta que os levou a uma sala inclinada, tomada por água turva e fétida que escorria lentamente pelo piso. No fundo, uma estátua de sahuagin erguia-se em meio ao líquido, irradiando um brilho roxo inquietante. Seu rosto estava virado para trás, e um braço faltava, como se tivesse sido arrancado em tempos remotos. Ao se aproximarem, foram atacados por um lodo cinzento psíquico, invisível até se mover contra eles.
Após derrotarem a criatura, investigaram a estátua e descobriram que sua cabeça era removível. Dentro dela, encontraram um compartimento carbonizado, com restos de cera derretida — sinais de que, em algum momento, a estátua fora usada como uma lanterna macabra.
Exaustos pela descida e pelo combate, decidiram acampar ali mesmo, na sala inclinada. Montaram suas provisões em um ponto mais seco, mantendo vigília enquanto o brilho roxo da estátua iluminava fracamente o ambiente. O som constante da água escorrendo pelas paredes acompanhava o silêncio do grupo, que repousava sob o peso da primeira noite em Undermountain.

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